Ponciá Vicêncio on “Livros 2026”, a list by Francinne Machado Ribeiro on TheLysts.

Details

Autor
Conceição Evaristo - Brasil, MG
Resumo
O romance 'Ponciá Vicêncio' narra a trajetória de uma mulher negra em busca de identidade e pertencimento em um contexto de opressão racial e social. A protagonista, Ponciá, deixa sua comunidade rural para enfrentar os desafios da vida urbana, lidando com a solidão e a discriminação, enquanto busca reconectar-se com suas raízes e sua família.
Avaliação
4.1
Observações pessoais
Uma leitura profunda que aborda temas de identidade, ancestralidade e resistência, proporcionando reflexões sobre a experiência afro-brasileira.
Outros
A história de Ponciá Vicêncio descreve os caminhos, as andanças, as marcas, os sonhos e os desencantos da protagonista. A autora traça a trajetória da personagem da infância à idade adulta, analisando seus afetos e desafetos e seu envolvimento com a família e os amigos. Discute a questão da identidade de Ponciá, centrada na herança identitária do avô e estabelece um diálogo entre o passado e o presente, entre a lembrança e a vivência, entre o real e o imaginado. Além de estabelecer um saudável contraponto com o abolicionismo branco do século XIX e com o negrismo modernista de um Jorge Amado, um José Lins do Rego ou Josué Montello, Ponciá Vicêncio remete ao Isaías Caminha, de Lima Barreto; em menor escala, ao Brás Cubas, de Machado de Assis; e, com certeza, ao memorialismo de Carolina Maria de Jesus e ao Ai de vós, de Francisca Souza da Silva, entre outros. Em todo o romance percebe-se a prosa recheada de linguagem poética. A obra nos narra pequenos acontecimentos do cotidiano, mas o seu olhar transcende o automatismo viciado com que se observam as coisas do dia-a-dia para olhar com essência a poesia da vida. O texto de Ponciá Vicêncio destaca-se também pelo território feminino de onde emana um olhar outro e uma discursividade específica. É desse lugar marcado pela etnicidade que provém a voz e as vozes-ecos das correntes arrastadas. Vê-se que no romance fala um sujeito étnico, com as marcas da exclusão inscritas na pele, a percorrer nosso passado em contraponto com a história dos vencedores e seus mitos de cordialidade e democracia racial. Mas, também, fala um sujeito gendrado (travestismo feminino - subalternidade), tocado pela condição de ser mulher e negra num país que faz dela vítima de olhares e ofensas nascidas do preconceito. Esse ser construído pelas relações de gênero se inscreve de forma indelével no romance de Conceição Evaristo, que, sem descartar a necessidade histórica do testemunho, supera-o para torná-lo perene na ficção.
Frases
“A vida era um tempo misturado do antes-agora-depois-e-do-depois-ainda”